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Consumismo e liquidez segundo Zygmunt Bauman

Foto do escritor: Marina Rodrigues
Marina Rodrigues
1 de set.
4 min de leitura

Um dia desses, escutei uma expressão que alugou um duplex na minha cabeça: “vivemos em uma época em que consumimos fé”. Eu já conhecia um pouco do termo filosófico citado e isso me fez lembrar de outro conceito fundamental: a liquidez. Sem me considerar especialista no assunto, pesquisei mais a fundo e quero compartilhar essa reflexão com você.

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Zygmunt Bauman (1925–2017) foi um sociólogo e filósofo polonês extremamente influente, criador do termo "modernidade líquida". Confesso que passei a estudar melhor suas obras recentemente e, no final deste post, deixo os links de dois vídeos da YouTuber Thaís Lima comentando livros dele que aprofundam esse debate.

O sólido versus o líquido

O conceito de liquidez em Bauman existe justamente para se contrapor ao sólido. O líquido, em sua essência, é informe e instável. O autor observa que a sociedade atual não abandonou a modernidade, mas apenas mudou o seu estado físico. Viver na modernidade líquida altera nossa percepção do tempo, da identidade e dos relacionamentos. Não há mais paciência para resultados de longo prazo; exige-se uma solução rápida e imediata.

Com isso, consolida-se o consumismo, não apenas no sentido de comprar em excesso (embora também seja isso), mas no fato de que tudo se transformou em mercadoria.

Antes da modernidade, consumia-se por necessidade; hoje, consumimos por desejo e prazer. Para Bauman, essa lógica mudou a forma como construímos nossa identidade e personalidade. Surgiu a ideia de que o trabalho é meramente a venda do nosso tempo para uma empresa. Para aumentar o ganho financeiro, precisamos aprimorar nossas habilidades e nossa percepção de valor no mercado; logo, viramos uma mercadoria que consome para sustentar a própria imagem.

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Ele também aponta as redes sociais como um motor crucial nessa mudança comportamental. Um perfil no Instagram, por exemplo, torna-se uma vitrine, e cada publicação funciona como um marketing de si mesmo. Abre-se mão da privacidade para se valorizar enquanto produto.

A vitrine da vida real

São conceitos incômodos e chocantes, mas a filosofia é rica justamente por isso: ela nos força a examinar a essência das coisas. Você pode até argumentar que seu perfil no Instagram é fechado e que você não tem objetivos profissionais nele. Porém, na essência, você continua escolhendo o que exibir da sua vida para que os outros entendam quem você é, do que gosta e o que faz. Ou seja: uma vitrine onde a rotina vira mercadoria, e a validação externa (via engajamento) entrega um retorno emocional de relevância e pertencimento.

Esses sentimentos são humanos e compreensíveis. A proposta de Bauman foi decodificar as motivações por trás desses comportamentos, que muitas vezes ocorrem de forma inconsciente. Nem todo mundo racionaliza tudo isso ao postar uma foto para os amigos, mas, como provocação filosófica, o autor nos instiga a ver que é exatamente isso que está acontecendo com a sociedade.

Algoritmos, IA e a perda do diálogo

Imagino como seria se Bauman estivesse vivo hoje para testemunhar a transformação das redes e o impacto da inteligência artificial na sociedade moderna. Fala-se muito em respeito e autenticidade, mas a realidade é devastadoramente oposta. Vivemos em um mundo polarizado, no qual pensar diferente vira ofensa imediata, e somos guiados por algoritmos que sufocam nossa essência individual.

O argumento de alguém passa a ser validado pelo número de seguidores e por seu posicionamento online. A indiferença e o descaso com a vida alheia viraram a norma dos debates na internet. Como tudo, a IA tem seu lado positivo e negativo, sendo o grande debate do momento. No entanto, como professora infantil de inglês, vejo de perto como as telas já alteraram profundamente o comportamento e a construção do raciocínio das crianças. Imagine, então, o impacto a longo prazo das IAs.

Não sou contra a existência dessas tecnologias, mas sempre as olhei com cautela. É nítido que a sociedade está perdendo a capacidade de dialogar e de exercer o pensamento crítico.

O sistema e o anseio por mudança

Ao aplicar essas reflexões à minha própria vida, percebi o quanto tenho sido consumista de forma inconsciente. Mesmo que você não concorde com o rumo da sociedade atual (assim como eu), é quase impossível não ser contaminado por seus valores, especialmente pelo receio de não se encaixar ou não pertencer ao todo. É uma visão pessimista, talvez, mas realista.

Muitos dizem querer “quebrar o sistema”, mas não sabem por onde começar ou em quem confiar. Entendo que esse seja um sentimento recorrente na história humana; é provável que angústias parecidas estivessem presentes na transição do feudalismo para o capitalismo, ou quando a Revolução Industrial alterou drasticamente os empregos da época. Veja o temor atual em relação à IA e às tensões geopolíticas globais: não vivemos um dilema exclusivamente brasileiro, mas um anseio generalizado por transformação. Só não conseguimos concordar em como mudar, se mergulhando de cabeça nas novas tecnologias ou pisando no freio para resgatar valores essenciais do passado.

Se continuarmos priorizando a felicidade individual acima de tudo, incapazes de acolher o outro e obcecados pelo prazer imediato, nunca chegaremos a um consenso. Ao contrário do senso comum, você não deve se cercar apenas de quem concorda com você, nem achar que a boa intenção anula os erros, tampouco se isolar para não ser influenciado. A filosofia nos ensina a questionar nosso próprio pensamento e a manter a autocrítica:

  • Será que ouvir apenas quem pensa como você realmente ajuda no seu crescimento pessoal?

  • Será que abraçar certos ideais apenas quando eles lhe convêm faz de você uma pessoa sábia?

Quando a fé vira consumo

Quando ouvi a frase sobre o consumo da fé, entendi perfeitamente a crítica. Muitas vezes, escolhemos acreditar apenas no que confirma nossos sentimentos e nos faz sentir aceitos. Com isso, esquecemos a essência da cosmovisão religiosa: conectar-se a algo maior.

Trazendo para os princípios cristãos, seria o equivalente a dizer que mentir é pecado — exceto quando a mentira traz benefício ou prazer próprio. Ou sustentar um cristianismo superficial e concluir: "Se Deus é bom e me criou, logo não há nada de errado comigo." Mas esse é um ponto que pretendo aprofundar em um próximo post para não me estender demais por aqui.

Espero que este desabafo intelectual e filosófico faça sentido para você! Deixe nos comentários o que achou desses conceitos e como você os enxerga no seu dia a dia.


Até a próxima leitura! 💐


Links dos vídeos recomendados:


(Detalhe: utilizei a IA para ajudar a editar este texto, um de seus benefícios ˆˆ)

1 comentário

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Convidado:
09 de set.

Interessante a visão sobre a liquidez, não tinha pensado nisso. Realmente, existe essa pressão de ser produtivo e de fazer tudo rápido, que acaba adoecendo.

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